Sobre a saudade

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No armário: as roupas. 

 
Agarradas aos cabides estáticos, as gavetas sem abrir. 
Ocupando espaço. 
Criando ilusão. 
Amaciando o passado que insiste, 
que volta. 
Sempre volta. 
 
Em busca daquilo que não encontra mais. 
 
Nos dedos: a ausência. 
 
Do calor, do conforto, da pele úmida. 
 
Não há mais cabelo para arrumar, 
gola da camisa para ajustar. 
 
O hálito quente que inevitavelmente vinha, 
com o beijo na palma, na bochecha – 
onde fosse – 
incomparável, 
não vem mais.  
 
Nada vem. 
Há um bom tempo. 
Nunca virá. 
 
Na mente: as memórias. 
 
Estas sim sempre presentes, 
sempre vindo. 
 
Vindo e indo. 
Em um ciclo perpétuo. 
 
Buscam o cheiro, o calor, 
a ausência. 
O amparo naquele armário sem sentido. 
 
As lembranças. 
 
Para qual as fotos não bastam, 
os tecidos não suprem, 
o suspiro se mantém. 
 
E ficam. 
Suspensos no ar. 
Por que ainda são melhor, 
que nada. 
 
Por que no coração… 
Ah, ali. 
O amor continua. 
Tornando mais difícil deixar ir. 
O armário, a ausência, 
tudo que lembra. 
 
… por que sempre lembrará.